O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é muito mais do que uma simples prova: trata-se de um rito de passagem, uma etapa decisiva para o ingresso no ensino superior e, frequentemente, um dos momentos de maior pressão na vida de um jovem. Contudo, enquanto a sociedade e os cursinhos concentram suas atenções na carga horária de estudos e no acúmulo de conteúdos, uma crise silenciosa ganha espaço: o adoecimento mental e a disfunção ocupacional desses estudantes.
Sob a ótica da Terapia Ocupacional, preparar-se para exames de alto impacto é uma ocupação complexa que demanda equilíbrio. Quando essa balança pende, os impactos se alastram por todas as esferas da vida do indivíduo.
1. A Epidemia de Sofrimento Psíquico nos Pré-Vestibulandos 📉
A exaustão do estudante não se resume a "preguiça" ou "falta de foco"; trata-se de um fenômeno comprovado cientificamente. Um estudo recente, que analisou jovens em cursos preparatórios, revelou indicativos de Transtorno Mental Comum (TMC) em 63,2% dos estudantes avaliados (LIMA et al., 2022). O levantamento evidenciou prejuízos significativos na organização do tempo, na qualidade do sono, no lazer e na manutenção de hábitos saudáveis — fatores que afetam o desempenho acadêmico de forma direta.
Essa realidade é reforçada por outras pesquisas que investigam o panorama emocional dessa fase. A alta prevalência de sintomas de ansiedade generalizada (SCHÖNHOFEN et al., 2020) e de quadros depressivos ligados à autocobrança, à pressão familiar e à drástica redução do convívio social (MELO et al., 2021) comprovam que o ambiente pré-vestibular pode ser um forte gatilho de adoecimento.
2. O Desempenho Ocupacional do Estudante: Muito Além dos Livros ⚙️🕰️
A Federação Mundial de Terapeutas Ocupacionais (WFOT, 2025) define nossa ciência como a área responsável por promover saúde e bem-estar, viabilizando a participação em ocupações significativas — ou seja, naquilo que as pessoas desejam, precisam ou devem realizar.
Na Terapia Ocupacional, o papel de "estudante" está inserido na área da Educação. No entanto, o sucesso nesse campo depende intrinsecamente de outros domínios da vida diária, conforme descrito na 4ª edição da Estrutura da Prática da Terapia Ocupacional (EPTO-4), como o sono, o descanso, o lazer e a participação social.
Para os candidatos ao Enem 2026, a rotina exige uma autogestão extrema. Adotar metodologias ativas de estudo — como a aplicação de engenharia reversa em questões de provas anteriores ou a criação de mnemônicos complexos — exige um gasto energético altíssimo das funções executivas e cognitivas. Sem ferramentas adequadas de regulação e organização, a rotina do estudante colapsa, abrindo caminho para o burnout acadêmico.
3. A Inclusão e o Atendimento Especializado no Enem ♿🤝
Outro aspecto fundamental do desempenho ocupacional em avaliações de larga escala é a acessibilidade. Em seus editais, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) assegura o direito ao atendimento especializado para participantes com deficiência, dislexia, TDAH, Transtorno do Espectro Autista (TEA), discalculia e transtornos mentais, além de garantir suporte em classes hospitalares e para outras condições específicas (INEP, 2026).
O terapeuta ocupacional desempenha um papel decisivo nesse cenário: atua tanto na elaboração de laudos funcionais que atestam a necessidade de adaptações (como tempo adicional, ledor ou salas de fácil acesso) quanto no treinamento do estudante, capacitando-o a utilizar esses recursos de maneira eficiente no dia do exame.
4. A Atuação da Terapia Ocupacional no Contexto Escolar 🏫🧩
A presença do terapeuta ocupacional como rede de apoio ao estudante possui sólido respaldo legal e científico. A Resolução COFFITO nº 500/2018 reconhece e regulamenta a especialidade de Terapia Ocupacional no Contexto Escolar, confirmando a competência desse profissional para avaliar e intervir no desempenho ocupacional do aluno.
Preparar-se para o Enem vai muito além de absorver conteúdos. Envolve organizar o dia a dia, cultivar hábitos saudáveis, regular o sono, manejar a ansiedade, resguardar os momentos de lazer e sustentar o papel de estudante de maneira equilibrada e funcional.
Dessa forma, a Terapia Ocupacional contribui ativamente oferecendo estratégias de organização de rotina, promoção de autonomia, adequação ambiental, manejo de demandas escolares e acessibilidade. Acima de tudo, atua para garantir que a busca pela aprovação não custe a saúde física e mental do jovem.
Referências Documentais Utilizadas:
AMERICAN OCCUPATIONAL THERAPY ASSOCIATION. Occupational therapy practice framework: domain and process. 4. ed. American Journal of Occupational Therapy, v. 74, supl. 2, 7412410010, 2020. DOI: 10.5014/ajot.2020.74S2001.
CONSELHO FEDERAL DE FISIOTERAPIA E TERAPIA OCUPACIONAL. Resolução COFFITO nº 500/2018: reconhece e disciplina a especialidade de Terapia Ocupacional no Contexto Escolar. Brasília: COFFITO, 2019.
INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA. Exame Nacional do Ensino Médio — Enem: perguntas frequentes. Brasília: Inep, 2026.
INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA. Haverá a disponibilização de recursos de acessibilidade? Brasília: Inep, 2026.
LIMA, Marcele Fernanda Oliveira Barros et al. Sintomas de Transtorno Mental Comum e desempenho ocupacional na percepção de jovens participantes de curso pré-acadêmico. Research, Society and Development, v. 11, n. 5, e19011527708, 2022. DOI: 10.33448/rsd-v11i5.27708.
MELO, Caio Matheus Inácio de et al. Depressão e sofrimento psíquico em estudantes pré-vestibulandos. Brazilian Journal of Development, Curitiba, v. 7, n. 6, p. 55575-55592, jun. 2021. DOI: 10.34117/bjdv7n6-118.
SCHÖNHOFEN, Frederico de Lima et al. Transtorno de ansiedade generalizada entre estudantes de cursos de pré-vestibular. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, v. 69, n. 3, p. 179-186, 2020. DOI: 10.1590/0047-2085000000277.
WORLD FEDERATION OF OCCUPATIONAL THERAPISTS. About occupational therapy. WFOT, 2025.
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