Quando listamos as atividades essenciais para a vida humana, logo pensamos em comer, vestir-se, tomar banho e trabalhar. Mas existe uma área vital, frequentemente silenciada por vergonha ou falta de informação, que é fundamental para a nossa saúde e bem-estar: a Sexualidade.
Isso significa que ela é tão importante quanto escovar os dentes ou dirigir um carro. Se uma doença, deficiência ou trauma interfere na sua capacidade de vivenciar sua sexualidade, é função do Terapeuta Ocupacional intervir.
Neste artigo, vamos quebrar o silêncio e explicar, de forma técnica e humana, como a T.O. atua para resgatar a intimidade e a autoestima.
1. Sexualidade Não é Só "O Ato" 🧠✨
Primeiro, precisamos expandir nossa visão. Sexualidade envolve o ato sexual, sim, mas também engloba:
Intimidade e afeto: O abraço, o beijo, o carinho.
Imagem corporal: Como eu me vejo no espelho (especialmente após cirurgias como mastectomia ou amputações).
Identidade: Como eu me expresso no mundo.
Função Reprodutiva: O planejamento familiar e o cuidado com métodos contraceptivos.
Quando um paciente sofre um AVC, uma Lesão Medular ou convive com dor crônica, todas essas esferas podem ser abaladas. O T.O. olha para o ser humano integral.
2. Como o Terapeuta Ocupacional Intervém na Prática? 🛠️🛌
A nossa abordagem é prática e personalizada. Utilizamos modelos teóricos (como o PLISSIT) para guiar o tratamento. Veja exemplos reais de atuação:
A. Adaptação Física e Biomecânica
Para pacientes com limitações motoras (artrite, lesão medular, dor lombar):
Posicionamento: Orientamos posições que exigem menos esforço físico, protegem as articulações dolorosas ou evitam espasmos musculares.
Conservação de Energia: Ensinamos estratégias para pacientes cardíacos ou com fadiga crônica manterem a intimidade sem exaustão.
Acessórios: Uso de almofadas, cunhas ou lubrificantes adaptados para facilitar o movimento e o conforto.
B. Reabilitação Sensorial
Para pessoas no Espectro Autista (TEA) ou com hipersensibilidade:
A intimidade pode ser avassaladora devido ao toque, cheiro ou som. O T.O. trabalha a regulação sensorial, ajudando o paciente e o parceiro(a) a descobrirem toques e ambientes que sejam prazerosos e não aversivos.
C. Adaptação de Rotina e Equipamentos
Para pacientes com estomas (bolsa de colostomia) ou cateteres:
Trabalhamos o esvaziamento prévio, a fixação segura dos dispositivos e a higiene para que o medo de "vazamentos" não impeça o momento a dois. Isso devolve a confiança.
3. O Modelo PLISSIT: Nossa Bússola Ética 🧭
Para estudantes e profissionais que leem este blog, é crucial lembrar que não damos "palpites". Nossa prática é baseada no modelo PLISSIT:
P (Permission): Dar permissão ao paciente para falar sobre o assunto. Validar que é normal ter dúvidas.
LI (Limited Information): Fornecer informações específicas sobre como a patologia afeta a sexualidade (ex: "O remédio X pode diminuir a libido").
SS (Specific Suggestions): Sugestões diretas de posicionamento e adaptação (o "como fazer").
IT (Intensive Therapy): Quando a questão envolve traumas profundos ou conflitos conjugais complexos, encaminhamos para psicoterapia especializada ou sexologia.
4. A Sexualidade é um Direito de Todos ♿🌈
Muitas vezes, a sociedade "dessexualiza" a pessoa com deficiência ou o idoso, como se eles não tivessem mais desejos. A Terapia Ocupacional luta contra esse estigma.
Um cadeirante tem direito ao prazer.
Uma pessoa com paralisia cerebral tem direito à intimidade.
Um idoso tem direito ao afeto.
Nosso objetivo é derrubar barreiras físicas e ambientais para que a expressão do amor e do desejo seja acessível a todos.
Conclusão: Saúde é Qualidade de Vida
Se você, profissional, não pergunta sobre sexualidade na sua avaliação, você está negligenciando uma AVD. Se você, paciente, sente que sua vida sexual acabou após um diagnóstico, saiba que existe reabilitação.
A Terapia Ocupacional está aqui para dizer: sua satisfação importa, seu corpo importa e adaptar-se é possível. Vamos conversar sobre isso?