A Terapia Ocupacional é a profissão do encontro. É a ciência que constrói pontes onde a doença ergueu muros. Nós aprendemos, desde o primeiro período, a olhar para o outro sem julgamentos, a adaptar ambientes e a acolher a diversidade.
Por que, então, parte da nossa própria categoria insiste em erguer barreiras contra seus futuros colegas?
Hoje, escrevo não apenas como estudante, mas como uma voz que representa milhares de brasileiros que sonham em vestir esse jaleco. Escrevo para falar sobre o boicote silencioso — e às vezes explícito — contra estagiários provenientes de cursos híbridos ou semipresenciais.
O Mito da "Facilidade" e o Peso dos Livros 📚
Existe uma narrativa desonesta circulando nos corredores e redes sociais: a de que a graduação que não é 100% presencial seria "fácil", "rápida" ou "comprada".
Quem diz isso desconhece a realidade de quem estuda de madrugada após um dia de trabalho. Desconhece a profundidade da Anatomia, da Neurologia, da Cinesiologia e da Saúde Pública que precisamos dominar. A plataforma de ensino não estuda pelo aluno. A exigência teórica é brutal, e a disciplina necessária para aprender sozinho, muitas vezes, supera a da sala de aula tradicional.
Nós não escolhemos o caminho "mais fácil". Muitas vezes, escolhemos o único caminho possível. O caminho que cabe no orçamento, que chega ao interior do Brasil, que permite conciliar o sustento da família com o sonho da universidade.
Negar Estágio é Negar Saúde à População 🚫🏥
O ponto mais crítico desse boicote é a recusa em assinar ou ceder campos de estágio.
Quando um Terapeuta Ocupacional formado se une a outros para negar sistematicamente vagas a alunos de determinadas instituições, ele não está "protegendo a qualidade da profissão". Ele está praticando uma reserva de mercado disfarçada de ética.
Vamos aos fatos:
O Brasil precisa de Terapeutas Ocupacionais: Temos um déficit gigantesco de profissionais no SUS e na rede privada. Filas de espera duram meses.
O Estágio é o Lugar do Aprendizado: Se a preocupação fosse genuína com a qualidade técnica, o profissional acolheria esse estagiário para moldá-lo, ensiná-lo e garantir que ele saia dali excelente.
Recusar é Punir a Sociedade: Ao impedir que um aluno se forme, você não está punindo a faculdade. Você está punindo a criança autista que ficará sem atendimento, o idoso pós-AVC que não terá reabilitação e o trabalhador acidentado que não voltará à sua função.
Um Convite à Reflexão Ética 🤝
Aos colegas já formados, deixo um questionamento sincero:
A sua recusa em supervisionar um estágio é baseada na incompetência individual daquele aluno que está na sua frente, ou é baseada no preconceito contra a logo da instituição no papel timbrado?
Se a Terapia Ocupacional é a profissão que adapta o mundo para que todos caibam nele, como podemos aceitar que ela exclua os seus próprios aprendizes?
Aos Estudantes que Sonham (Como Eu) ✨
Não desistam. O desafio de enfrentar o preconceito acadêmico é grande, mas a nossa vontade de ofertar uma vida melhor para a sociedade é maior.
Nós estudaremos o dobro. Nós seremos os estagiários mais dedicados, os mais pontuais, os mais sedentos por conhecimento. Nós provaremos nossa competência não no grito, mas na beira do leito, no tapete da sala de terapia, na vida transformada dos nossos pacientes.
A competência não tem modalidade. A ética não tem CEP. E o futuro da Terapia Ocupacional pertence a quem tem coragem de cuidar — inclusive dos seus futuros colegas.