Estudo de Caso Clínico: Intervenção da Terapia Ocupacional no TEA Nível 3 de Suporte no Contexto Escolar 🧩🏫
A inclusão escolar de crianças com Transtorno do Espectro Autista — TEA Nível 3 de suporte — representa um desafio importante para a equipe escolar, para a família e para os profissionais da reabilitação. Em muitos contextos, os comportamentos de crise, recusa ou agitação são interpretados apenas como problemas comportamentais. No entanto, pela perspectiva da Terapia Ocupacional, esses comportamentos podem estar relacionados a dificuldades no processamento sensorial, na comunicação funcional, na previsibilidade da rotina, no planejamento motor e na adequação das demandas escolares às habilidades reais da criança. 🧠⚠️
A seguir, apresenta-se um caso clínico simulado, organizado com base no raciocínio clínico da Terapia Ocupacional e nos domínios da Estrutura da Prática da Terapia Ocupacional — OTPF-4. 📘
1. Identificação e perfil ocupacional 📋
Paciente: L.M., 7 anos, sexo masculino. 👦
Diagnóstico médico: Transtorno do Espectro Autista — TEA Nível 3 de suporte. 🧩
Contexto atual: Criança matriculada no 1º ano do Ensino Fundamental em escola regular, com acompanhamento individualizado no ambiente escolar. 🎒
Queixa principal da família e da escola: 🚨 A criança apresenta grande dificuldade para permanecer em sala de aula, especialmente durante momentos de transição entre atividades, propostas de mesa e períodos de maior estímulo ambiental, como entrada, saída e recreio. São relatados episódios de desregulação emocional e sensorial, caracterizados por gritos, choro intenso, autoagressão, arremesso de objetos e recusa em participar das atividades pedagógicas.
A escola também relata dificuldade de L.M. em manter-se sentado, seguir instruções coletivas, interagir com os colegas e participar de tarefas que envolvem lápis, papel, cópia ou registro gráfico. A família demonstra preocupação com o isolamento social da criança e com o risco de exclusão das atividades escolares. 📉
2. Avaliação terapêutica ocupacional 🔍
A avaliação da Terapia Ocupacional foi realizada por meio de observação clínica no ambiente escolar, entrevista com familiares e equipe pedagógica, análise da rotina escolar e levantamento das principais demandas ocupacionais da criança. 📝
Durante a avaliação, observou-se que os episódios de crise ocorriam principalmente em situações de sobrecarga sensorial, exigência motora fina, mudanças bruscas na rotina e dificuldade de comunicação funcional. Assim, os comportamentos apresentados por L.M. foram compreendidos como formas de expressão de desconforto, frustração ou tentativa de fuga diante de demandas que ultrapassavam suas possibilidades de autorregulação naquele momento. 🌪️
Foram identificadas as seguintes barreiras ao desempenho ocupacional:
a) Dificuldades de modulação sensorial 🎧🔊 L.M. demonstrava hipersensibilidade auditiva e tátil. Sons comuns no ambiente escolar, como cadeiras arrastando, crianças conversando, lápis caindo ou campainha tocando, desencadeavam sinais de desconforto intenso. Em momentos de maior ruído, a criança levava as mãos aos ouvidos, chorava, tentava sair do ambiente ou apresentava comportamentos de autoagressão. Essas respostas sugerem dificuldade em modular estímulos sensoriais, especialmente auditivos, o que interfere diretamente na permanência em sala, na atenção às propostas pedagógicas e na participação social.
b) Dificuldades de planejamento motor e motricidade fina ✍️✋ Nas atividades de mesa, L.M. apresentava dificuldade para segurar o lápis, estabilizar o papel, realizar traçados simples e organizar os movimentos necessários para iniciar e concluir tarefas gráficas. A recusa em realizar atividades com lápis e papel não foi interpretada apenas como oposição, mas como possível resposta à frustração diante de uma demanda motora fina acima de sua capacidade funcional naquele momento. Também foram observadas dificuldades de práxis, especialmente na ideação, organização e execução de ações motoras novas ou pouco familiares.
c) Baixa previsibilidade da rotina 🔄⏳ As transições entre atividades eram momentos críticos. Quando precisava interromper uma atividade de interesse para iniciar outra proposta, L.M. apresentava intensa desregulação. A ausência de recursos visuais e de antecipação da rotina parecia aumentar a ansiedade e dificultar a compreensão do que aconteceria em seguida. Essa dificuldade está relacionada à rigidez cognitiva, à necessidade de previsibilidade e à limitação na compreensão de instruções exclusivamente verbais.
d) Comunicação funcional limitada 🗣️🛑 L.M. não utilizava comunicação oral funcional de forma consistente para expressar necessidades como “pausa”, “não quero”, “barulho”, “ajuda” ou “quero sair”. Dessa forma, muitos comportamentos disruptivos pareciam exercer função comunicativa, indicando desconforto, necessidade de interrupção da atividade ou tentativa de escapar de estímulos aversivos.
3. Plano de intervenção da Terapia Ocupacional 🛠️🎯
A intervenção terapêutica ocupacional foi organizada com foco na participação escolar, na autorregulação, na adaptação ambiental e na ampliação da comunicação funcional. O plano foi construído em parceria com a família, a professora, a equipe escolar e o acompanhante individual da criança. 🤝
A. Adaptação ambiental e organização da rotina 🪑🔇 Inicialmente, foram propostas modificações no ambiente escolar para reduzir a sobrecarga sensorial e favorecer maior previsibilidade. Foi organizado um local mais estruturado para L.M. dentro da sala, com menor exposição a estímulos excessivos, evitando proximidade com portas, janelas, corredores muito movimentados ou áreas de maior ruído. Também foi sugerido o uso de abafadores de ruído em momentos específicos, como recreio, entrada, saída ou atividades coletivas mais barulhentas, sempre com acompanhamento e sem uso indiscriminado. Além disso, foi implementado um quadro visual de rotina, contendo imagens simples e objetivas das principais atividades do dia. Esse recurso passou a ser utilizado para antecipar transições e preparar a criança para mudanças de atividade, reduzindo a imprevisibilidade e aumentando sua segurança. 🗓️
B. Comunicação alternativa e aumentativa 📇💬 Considerando a dificuldade de L.M. em expressar desconforto e pedir ajuda de forma funcional, foi introduzido um sistema de comunicação visual com cartões de uso imediato, como:
🛑 PAUSA
🆘 AJUDA
🚻 BANHEIRO
🔊 BARULHO
✅ ACABOU
🧸 QUERO BRINCAR
O objetivo foi oferecer à criança uma forma alternativa de comunicação antes que ela precisasse recorrer a comportamentos como jogar objetos, gritar ou se autoagredir. A equipe escolar foi orientada a reconhecer e responder adequadamente ao uso dos cartões, reforçando a comunicação funcional. Com o uso sistemático do cartão “PAUSA”, L.M. passou a ter uma estratégia mais adequada para solicitar interrupção da atividade quando estivesse sobrecarregado.
C. Estratégias sensoriais para autorregulação 🏃♂️🧠 Foi elaborada uma rotina de estratégias sensoriais, aplicada no contexto escolar sob orientação da Terapia Ocupacional. Antes de atividades com maior exigência de atenção, permanência sentada ou coordenação motora fina, L.M. realizava atividades proprioceptivas, também conhecidas como atividades de “trabalho pesado”. Entre as estratégias utilizadas, estavam:
📦 carregar uma caixa leve com materiais escolares;
🧱 empurrar uma parede com as mãos;
📚 organizar livros em uma prateleira;
🚶♂️ levar objetos de uma sala para outra;
🫂 realizar compressões profundas com supervisão adequada;
🤸♂️ fazer pequenos circuitos motores antes das atividades de mesa.
Essas atividades tinham como objetivo favorecer a organização corporal, melhorar o nível de alerta, reduzir a agitação e preparar a criança para participar de propostas escolares com maior disponibilidade.
D. Adaptação das atividades pedagógicas 🖍️📚 A Terapia Ocupacional também atuou na análise das demandas das atividades escolares. Observou-se que muitas tarefas propostas para a turma exigiam habilidades motoras, cognitivas e atencionais ainda não consolidadas por L.M. Assim, as atividades foram adaptadas para permitir participação real da criança. Por exemplo, enquanto a turma copiava dez palavras do quadro, L.M. poderia parear três imagens correspondentes, circular figuras, colar cartões, apontar respostas ou realizar traçados simples com apoio visual. O objetivo não foi excluir a criança da proposta pedagógica, mas ajustar a exigência da tarefa para que ela pudesse participar de forma funcional, experimentar sucesso e ampliar gradualmente sua tolerância às atividades escolares. ✔️
E. Adequação postural e mobiliário 🪑📐 Durante as atividades de mesa, foi observada instabilidade postural, inquietação e dificuldade de manter os pés apoiados. Por isso, foi indicada adequação do mobiliário, com cadeira e mesa compatíveis com a altura da criança, apoio firme para os pés e posicionamento que favorecesse alinhamento corporal. A melhora da estabilidade postural contribuiu para maior organização motora, redução da fadiga e melhor disponibilidade para atividades de coordenação motora fina.
F. Consultoria colaborativa com a equipe escolar 🤝👩🏫 A intervenção também incluiu reuniões com a professora, acompanhante individual e coordenação pedagógica. Foram discutidas estratégias para manejo das transições, redução de estímulos, antecipação da rotina, uso dos cartões de comunicação e adaptação das atividades. A equipe foi orientada a observar os sinais iniciais de desregulação, como inquietação, tapar os ouvidos, afastar materiais, levantar-se repetidamente ou tentar sair da sala. A identificação precoce desses sinais permitiu intervenções preventivas antes da instalação de crises mais intensas. Também foi reforçada a importância de não interpretar todos os comportamentos como birra ou oposição, mas como possíveis respostas a demandas sensoriais, motoras, comunicativas ou cognitivas não atendidas. 💡
4. Evolução do caso 📈⏳
Após três meses de intervenção, foram observadas melhoras importantes na participação escolar de L.M. A criança passou a tolerar melhor a permanência em sala de aula, especialmente quando a rotina visual era utilizada de forma consistente. O tempo de permanência sentado aumentou progressivamente, principalmente após a introdução de estratégias sensoriais e adequação postural. 🌟
Os episódios de autoagressão e arremesso de objetos diminuíram em frequência e intensidade, especialmente quando a criança passou a utilizar o cartão “PAUSA” para comunicar necessidade de interrupção. Embora ainda apresentasse dificuldades significativas em momentos de maior ruído e transição, L.M. passou a demonstrar maior previsibilidade comportamental e melhor resposta às estratégias de regulação.
A participação em atividades pedagógicas também evoluiu. Inicialmente, L.M. recusava quase todas as propostas de mesa. Com a adaptação das tarefas, passou a participar de atividades curtas de pareamento, colagem, identificação de figuras e traçados simples, com apoio visual e mediação do adulto. No campo da participação social, ainda havia isolamento em relação aos pares, mas a criança começou a tolerar maior proximidade de colegas em atividades estruturadas e de curta duração. 🧩
5. Discussão clínica 🗣️🧠
O caso evidencia a importância da Terapia Ocupacional na inclusão escolar de crianças com TEA Nível 3 de suporte. A dificuldade de L.M. em permanecer na sala, realizar atividades pedagógicas e participar da rotina escolar não estava relacionada apenas ao comportamento, mas a um conjunto de fatores que envolviam processamento sensorial, comunicação funcional, planejamento motor, previsibilidade e adequação das demandas ambientais. ⚖️
A intervenção mostrou que, quando o ambiente é adaptado e a criança recebe recursos compatíveis com suas necessidades, há maior possibilidade de participação ocupacional. A atuação da Terapia Ocupacional favoreceu a construção de estratégias individualizadas, respeitando o perfil sensorial, motor, comunicativo e cognitivo da criança.
Também se destacou a importância do trabalho em equipe. A inclusão escolar não depende apenas da presença física da criança na escola, mas da criação de condições reais para que ela participe, aprenda, comunique-se e seja reconhecida em suas potencialidades. 🏫✨
6. Conclusão ✅🌟
A intervenção da Terapia Ocupacional no contexto escolar de L.M. contribuiu para a redução de barreiras sensoriais, motoras, comunicativas e ambientais que limitavam sua participação nas atividades escolares. Por meio de adaptações no ambiente, uso de comunicação alternativa, estratégias sensoriais, adequação postural, adaptação de tarefas e orientação à equipe escolar, foi possível ampliar o engajamento da criança na rotina da escola. 🛠️
O caso demonstra que comportamentos de crise devem ser compreendidos de forma ampla e contextualizada. Antes de serem vistos apenas como oposição ou indisciplina, precisam ser analisados como possíveis sinais de sobrecarga, dificuldade de comunicação, baixa previsibilidade ou inadequação das demandas à capacidade funcional da criança.
Assim, a Terapia Ocupacional atua como uma ponte entre as necessidades da criança, as exigências do ambiente escolar e as possibilidades reais de participação, promovendo inclusão, funcionalidade e qualidade de vida no cotidiano educacional. 🚀💙
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